sexta-feira, 15 de maio de 2015

Psicoterapia, regressão e meditação como práticas de presenciamento

A prática clínica tem me mostrado que tanto a psicoterapia quanto a regressão podem remeter a essência da meditação no seu sentido amplo que é a atenção plena, o tornar-se presente e o desenvolver uma introvisão e uma sensibilidade cada vez maiores, ampliando nossa ética, nossa compaixão, nossa sensibilidade, nossa consciência, nosso amor.

Nesse sentido será que seria possível entendermos a psicoterapia com regressão como um tipo de meditação?

Diria que sim ao menos em se tratando de uma psicoterapia numa abordagem transpessoal e da prática da meditação em seu sentido mais ativo, dinâmico ou com objeto; que não se opõe, mas sim poderia ser considerada complementar a meditação sem objeto, cuja meta seria uma não-dualidade, conforme as tradições espirituais.

Desse modo podemos optar por visões contemporâneas mais conciliadoras desses aspectos distintos do meditar, numa ampliação do conceito de meditação que oportuniza cada vez mais pessoas a começar de onde estão e a tornarem-se praticantes, a tornarem-se mais presentes, a exercitarem o presenciamento.

Pois sofrimento é ausência! Sofrer é viver a vida somente nas convenções, nos condicionamentos passados, no piloto automático da inconsciência. É ignorar os próprios avessos! É insensibilizar-se, estar distraído e alienado na vida e nas relações, distanciando-se da resolução dos conflitos ou sem aprender praticamente nada com eles, anestesiando-se, sem escuta interna, sem olhar a própria sombra, enganando-se e fugindo de si. E é nessa pretensa fuga do sofrer que fugimos também do sentir e do instante presente… sofrendo muito mais, pois prolongamos assim o nosso sofrimento nos habituando com ele. Um remedinho aqui, uma distraçãozinha acolá e assim seguimos…

Numa direção oposta, tanto a psicoterapia, quanto a regressão assim como a meditação são no fundo práticas de PRESENCIAMENTO, pois nos tornam mais capazes de nos liberarmos de nossos condicionamentos antigos e abrem espaço a presença que nos conecta ao aqui-agora e a um contato cada vez maior com a nossa essência e a energia transformadora do amor que expande a nossa mente e a nossa consciência. 

Porém, muitos não querem práticas, mas sim soluções de fora, de preferência rápidas ou imediatas, se ausentando até mesmo de seu próprio processo de cura e tomada de consciência, ignorando o sentido da doença ou do seu sofrer e transferindo a responsabilidade a um agente externo: médico, analista, padre, psicólogo, pastor, deus, terapeuta, monge, astrólogo, xamã, cartomante, mãe-de-santo, mestre, médium, etc. Agem passivamente como vítimas e buscam algum alívio tão somente ou controle de seus sintomas. Poucos são os que se dispõem verdadeiramente ao esforço humilde, honesto e resoluto de encarar o que precisa ser transformado em si mesmos e a atuar igualmente nas causas do seu sofrer, assumindo a auto-responsabilidade.

Afinal, isso envolve um exercitar as mudanças pessoais que vão ser sempre muito mais do que um simples alívio dos sintomas, exigindo também comprometimento, dedicação, profundidade, persistência ou, fundamentalmente, conscientização.

Para isso, muitas são as abordagens em terapia e técnicas de meditação, bem como, diversas são as terapêuticas, assim como muitos são os princípios comuns e também várias são as diferenças. No entanto, em essência, que é o que interessa, proponho que vai depender do nosso modo de compreensão, necessidades, afinidades e coordenação de ações, aproximarmos tanto quanto possível umas das outras, não no sentido de sobrepô-las, mas sim de aproveitá-las no melhor que pudermos de modo integrativo, a fim de buscarmos uma combinação de práticas e terapêuticas que funcionem bem para o nosso crescimento e evolução.

Ademais, convém cuidarmos com as falsas expectativas, pois nenhuma terapêutica, terapeuta ou abordagem vai resolver a nossa vida, nenhuma técnica é passe de mágica, nenhum processo verdadeiro vai dispensar o nosso esforço e não basta fazer regressão ou qualquer outro tipo de intervenção seja convencional ou alternativa que está tudo resolvido! Não devemos confundir a terapêutica (que nos alivia) com a terapia (que nos impulsiona a mudança). Não é o método em si, mas a nossa relação com ele que importa! Pois numa visão integral e evolutiva de saúde pouco adianta buscar o alivio de sintomas ou uma cura sem conscientização, pois estaremos apenas nos enganando, adiando a questão ou levando o problema para camadas mais profundas da nossa (in)consciência.

Portanto, ao adoecer, façamos a leitura disso nos múltiplos aspectos do nosso ser, no físico, psicológico e espiritual. É preciso praticar a mudança que queremos e isso inclui nossos hábitos e comportamento! Não basta tomar remédio, seja ele, químico ou natural, não basta submeter-se a intervenções cirúrgicas ou de qualquer outro tipo, até mesmo espiritual, você pode fazer tudo isso e em muitas situações pode até ser o indicado ou não, mas nenhuma erradicação ou alivio de sintomas é cura verdadeira se não envolver um sentido de mudança íntima, interna, de nossos hábitos e estereótipos comportamentais, enfim, se não promover algum tipo de conscientização mais profunda e integração de nossa sombra, ajudando a nos melhorar como seres humanos e a assumirmos responsabilidade pelo nosso próprio viver e sofrer.

Por isso, parto do pressuposto básico em minha prática clínica de que devemos aprender a meditar a vida, a estar presentes.

Assim, partir de nossos condicionamentos que são sempre pretéritos para o instante presente é um objetivo tanto da prática em psicoterapia quanto meditativa e em meu trabalho tenho procurado cada vez mais enfatizar isso junto as pessoas, o quanto esse exercitar deve ir para além do setting clínico, sendo orientado para a vida diária, tendo por base: a atenção plena ao presente do comportamento, ao sentir e respirar mais conscientemente, ao trabalho com as emoções, pensamentos, sensações corporais e sentimentos nas nossas relações e ao cultivo de valores de vida, da própria espiritualidade em nosso dia a dia.

Ou seja, isso também pode e deve ser feito ou praticado em nosso cotidiano mesmo, nos vários papéis que desempenhamos em nossas vidas e nos vários ambientes em que vivemos e não só naqueles espaços onde buscamos o autoconhecimento e o cuidado com a nossa saúde ou a espiritualidade, como nos consultórios, nos espaços terapêuticos, em vivências junto a natureza ou até em retiros de meditação.

Então podemos praticar em nossos relacionamentos, meditando ser pai ou ser mãe, marido, esposa, filho(a), etc., meditando o casamento ou a solteirice, o namoro ou as amizades, enfim, meditando as tarefas domésticas, meditando as relações de trabalho, ou nos vários papéis e funções que assumimos, ou seja, terapeutizando-nos em nossas relações habituais, exercitando a arte de cuidar, ou também, praticando a espiritualidade (enquanto dimensão de valores) onde estivermos.

Dessa forma, até onde vejo, aprender a parar, respirar, relaxar, sentir e tomar consciência das sensações corporais e pensamentos, meditando o nosso viver e nossas relações, também se torna parte do processo de interiorização a ser aprendido ao longo de um trabalho psicoterapêutico numa perspectiva mais integrativa e transpessoal.

Nesse ínterim a pessoa aprende também a identificar por si aqueles padrões automáticos que lhe causam sofrimento, rompendo gradativamente com eles na medida em que avança em sua atenção e aprofunda-se em compreensão e consciência sobre eles num exercitar que envolve tanto uma dimensão interna: pessoal, interior, quanto outra externa: interpessoal, social.

Portanto, os relacionamentos são fundamentais nesse sentido, pois vão refletir os pontos onde estamos bem ou pontos onde precisamos melhorar. Vão refletir nossos pontos cegos ou onde ainda estamos bloqueados. O sentir nos guia ao trazemos o foco para uma atenção sensível aos nossos próprios pensamentos e atitudes, numa sensibilidade inteligente em que a razão serve ao coração, nos conduzindo a um aprofundamento de nossos temas a serem tratados.

Entrementes, um excelente acelerador desse processo de autoconhecimento é a técnica de regressão que ao contrário do que possa parecer é um método não de retorno ao passado, mas ao contrário e similarmente a psicoterapia e a meditação, de descondicionamento psicológico do passado para trazer a pessoa ao presente, ao aqui e agora de seu ser e estar no mundo.

Minha própria visão e experiência nesse campo apontam para o fato de que as lembranças e revivências de memórias profundas têm virtudes terapêuticas que possibilitam o desativar de bloqueios emocionais no inconsciente, bem como, o reformular de mandatos negativos limitantes. Sobretudo podemos desenvolver maior autoconsciência pela aquisição de mais amor sabedoria através do aprendizado de leis sutis e causais que regem as nossas vidas em termos psíquicos e que afetam nossas escolhas, gerando conseqüências.

A regressão possui uma vantagem fundamental em relação a meditação para trabalhar aspectos sombra (inconsciente negativo) por ser mais direta e apropriada ao rastreamento, liberação e ressignificação de bloqueios específicos no subconsciente enquanto a meditação é mais ampla e genérica nesse aspecto; porém é através da psicoterapia encarada como meditação ou até de outras práticas de meditação concomitantes que podemos tornar a mudança operada pela regressão mais consistente em nosso comportamento, pois isso demanda um exercitar constante.

A terapia regressiva é, portanto, um método de presenciamento e ampliação da consciência que ajuda na integração de aspectos negativos polarizados em nosso inconsciente, possibilitando-nos restaurar maior equilíbrio e harmonia em nosso ser e em nossa saúde, através do esforço que inclui a regressão, mas que vai muito além dessa, passando pela psicoterapia e pela prática do presenciamento meditativo em nosso dia a dia.

Volto a enfatizar, no entanto, que embora a psicoterapia possa funcionar como um tipo de meditação dinâmica ou possa incluir e incentivar a prática de diferentes tipos de meditação, ou práticas em paralelo, uma não substitui a outra, nem muito menos substituem a regressão ou até a necessidade de outras terapêuticas auxiliares, pois penso que cada uma tenha sua função ou respectiva importância e num viés de complexidade e de múltiplos níveis de ser, de saúde e realidade, podem atuar complementarmente na maior parte das vezes.

Sistematizador da abordagem integral e praticante experimentado de meditação, o filósofo Ken Wilber afirma que “a meditação pode ajudar, mas não substituir a psicoterapia.” (Visão Integral, pg. 183, 2008). Eu acrescentaria que a psicoterapia poderia se incluir nas formas de meditação dinâmica, mas indicaria as tradições contemplativas para métodos de meditação sem objeto, visando a vacuidade ou natureza última dos fenômenos e a não-dualidade, pois as psicoterapias de modo geral não se propõem a isso e não substituem esse tipo de meditação. 

No entanto, enquanto no ocidente o uso excessivo da razão trouxe-nos a tendência a polarizar a realidade, no oriente, há certa tendência a se minimizar a importância do trabalho psicológico de base em prol de uma via contemplativa mais direta para além das polaridades que também pode acabar se tornando polarizada. Pois, tanto a tendência ao racional típica no ocidente, quanto a tendência mais contemplativa típica no oriente, bem como, seus entrecruzamentos mais contemporâneos tendem a escamotear e opor fortes resistências ao trabalho com a sombra. Porém, se a razão divide para conhecer e a contemplação abre espaço ao não-dual, a quietude e ao silêncio, o sentir interliga e o amor une, integra. Todas essas funções são indispensáveis para o nosso crescimento genuíno, correspondem a estágios de evolução da nossa consciência e exigem múltiplos modos de desenvolvimento e aprendizado.  

Assim, se a meditação sem objeto promove acesso a estados elevados e ao ponto último conforme descritos em grandes tradições espirituais, a regressão transpessoal pode promover acesso ao subconsciente e ao trabalho com as sombras onde divino também espera por nós, na medida em que lá estão nossas possibilidades de conversão, de redenção, a integração da luz com a sombra, bem como nosso potencial para a sabedoria intuitiva, para o perdão e para o amor.

Além do mais, Ken Wilber faz a seguinte constatação: “Achava-se que a meditação por si só fosse capaz de trazer à tona ou ‘des-reprimir’ a maioria dos tipos de material inconsciente reprimido. Mas depois das últimas décadas de prática de meditação, milhões de sombras permanecem inalteradas.” (Visão Integral, pg. 183, 2008) E complementou: “As razões para isso foram investigadas e a questão a fundo parece ser que, a não ser que você saiba exatamente o que está buscando, a vasta panorâmica da meditação é uma abordagem demasiadamente genérica para tocar elementos específicos da sombra. Para isso, faz-se necessária uma psicoterapia do tipo raio ‘laser’.” (Visão Integral, pg. 183, 2008)

Pois quando bem empregada, a regressão tem mostrado precisão e eficiência cirúrgicas (a laser!) na recuperação, liberação e reconfiguração de memórias profundas para descondicionamento psicológico, ajudando a abrir espaço a presença que nos conecta ao aqui-agora, ao contato cada vez maior com a nossa essência e a integração da sombra pela energia transformadora do amor.

Mas o mais é importante é que ainda numa perspectiva conciliatória e complementar, tanto a psicoterapia quanto a regressão podem potencializar a prática de meditação seja o tipo que for, assim como métodos meditativos de qualquer tipo podem favorecer a quem faz psicoterapia e regressão.

E concluo afirmando que a combinação de psicoterapia, meditação e regressão pode contribuir enormemente para o nosso crescimento psicológico e espiritual, numa abordagem que integra bem aspectos do ocidente e do oriente, de forma coesa, nos possibilitando um caminho de evolução que não exclui nem as filosofias e práticas orientais nem as filosofias, ciências e psicologias ocidentais, mas sim aproveita o que há de melhor e mais essencial em todas elas em prol de nossa evolução e libertação do sofrimento em direção ao AMOR.

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