sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Regressão de Memória e a Espiritualidade à luz de uma Ciência com Consciência - parte 2

Como temos visto, é no âmbito de uma ciência do mundo interior, de uma ciência da consciência que a técnica de regressão e qualquer tipo de espiritualidade pode se fundamentar, pois não faz sentido algum qualquer tentativa de encaixe de seus pressupostos no fracassado paradigma cartesiano com o seu falseamento da realidade e suas vãs promessas de progresso dissociado da natureza que apenas reencenam uma espécie de Prometeu moderno, onde o homem em seu delírio racional, ignorante de seus mitos e complexos inconscientes, mobiliza forças que pressupõe poder controlar mas que impiedosamente reverberam contra si, levando-o a tragédias.

É notório que precisamos um novo paradigma de ciência. Isso já foi defendido por muitas vozes sábias no passado e, felizmente, essa empreitada vem sendo aceita mais atualmente por alguns dos principais pensadores contemporâneos, dentre esses, destaco especialmente alguns dos que venho utilizando para embasar o meu trabalho clínico e este próprio artigo, como o autor da teoria da complexidade Edgar Morin; os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela; o filósofo da consciência David Chalmers; as contribuições da transdisciplinaridade de Basarab Nicolescu e seus colegas; também os diversos autores humanistas, junguianos e transpessoais; bem como, o pensador francês Pierre Levy. Mais ainda, revisitando Georges Canguilhem, Claude Bernard; ou então, unindo o pensamento ocidental com a sabedoria do oriente através do professor budista B. Alan Wallace, de Ken Wilber, autor da abordagem integral e do sábio indiano Sri Aurobindo, dentre muitos outros não citados aqui, mas que podemos incluir na proposição de um pluralismo metodológico cientifico, de mudanças de paradigmas e de uma nova epistemologia da ciência.

Ken Wilber (1997), por exemplo, sustenta que uma das tentativas mais sofisticadas que podemos encontrar para compreendermos múltiplas realidades é o pluralismo epistemológico, ou seja, o pressuposto de que nossa existência, por possuir diferentes níveis de ser (ontológico), pode por conseqüência, possuir também diferentes níveis de saber (cognição). Conforme ele enfatiza, todo conhecimento válido, seja ele de ordem sensorialmental ou espiritual, pode ser validado ao passar por três etapas decisivas: 1) no treinamento em algum método de apreensão de dados, injunção, método-guia, exemplar, ou prática social; 2) através do experimentar sistematicamente, pela experiência pessoal, experimentação ou empirismo puro; 3) e pelo compartilhar numa comunidade de verificação, comparação comunitária, testagem pública para confirmação ou refutação num grupo de pessoas que tenha completado as etapas anteriores.

E isso, segundo ele diz, pode ser feito de forma metodologicamente apropriada a qualquer objeto de pesquisa, seja ele físico, mental ou espiritual. Em suma, respeitando os três olhos do saber, podemos praticar ciência empírica (olho da carne), ciência mental (olho da mente) e ciência espiritual (olho do espírito); através de três tipos de metodologias decorrentes, que podem ser tecnicamente assim descritas: 1) método empírico-analítico: baseado na covariância de eventos observáveis no mundo sensório-motor para investigar a dimensão física ou material; 2) método histórico-hermenêutico: baseado no acesso aos fatos por meio do entendimento do sentido ou da interpretação e seu mundo racional, dando espaço a dimensão mental ou subjetiva; 3) método intuitivo-contemplativo: acesso aos fatos por meio do treinamento da intuição e da percepção em diferentes estados de consciência para acesso ao mundo transcendental, a dimensão espiritual.

Desse modo, é preciso treinamento da percepção, da cognição e da intuição em diferentes estados de consciência para adentrar as esferas da espiritualidade, do mesmo modo que é preciso fazer anos de faculdade para se obter um diploma. Assim, os dados e as experiências espirituais, incluindo aí, as obtidas em revivências transpessoais, estão a nossa disposição, desde que paremos com a empáfia de querer impor à realidade espiritual como ela deva ser e nos interessemos e permitamos verdadeiramente vivenciar seus domínios segundo suas próprias leis e características. O que vem ao encontro daquilo que já afirmava aquele que foi considerado por muitos, um os maiores filósofos sábios da Índia, o yogue com formação acadêmica ocidental, Sri Aurobindo:

“Todas as verdades, suprafísicas ou físicas, não podem fundar-se somente sobre as crenças mentais, mas sim sobre as experiências – experiências, porém, que correspondam ao tipo específico – físico, subliminar ou espiritual – de verdades que se quer investigar; a validade e o significado dessas experiências têm de ser examinados, mas de acordo com a própria lei delas e por meio de uma consciência capaz de reproduzi-las em si mesmas (…); só assim poderemos ter segurança no nosso caminhar e chegar a ampliar significativamente a nossa esfera de conhecimento.” (Sri Aurobindo apud A.S. Dalal, pg. 169, Uma Psicologia Maior, 2001)

Nesse mesmo compasso, B. Alan Wallace, pesquisador americano e professor de budismo e meditação e de suas relações com as neurociências, defende que é perfeitamente possível levarmos a ciência para o domínio interior pelo treinamento da introspecção, o que o aproxima da proposta de Aurobindo e de Wilber dos três olhos do saber, bem como, das proposições de outros investigadores da consciência:

“Com relação a adquirir conhecimento introspectivo, uma única cognição pode ser avaliada – epistêmica e pragmaticamente – apenas em relação a cognições prévias posteriores. Com treinamento, pode-se intensificar e aprimorar a faculdade da metacognição, ou introspecção, tanto quanto a faculdade visual humana tem sido intensificada e aprimorada com instrumentos como o telescópio. E por meio do discurso verbal pode-se cruzar referências das experiências de uma pessoa com as de outros que se engajaram nesse treinamento introspectivo, assim como os cientistas testam as descobertas uns dos outros em seus respectivos laboratórios.” (B. Alan Wallace, pg.142, Dimensões Escondidas, 2009)

Portanto, a despeito dos proselitistas oficialistas de qualquer naipe, não é a TRT – Terapia de Revivência Transpessoal que tem de se submeter ao rigor acadêmico ou cientifico, o que quer que isso signifique para esses, até porque existem divergentes visões de ciência na própria academia e mesmo fora dela, mas sim os interessados em avaliá-la honestamente que precisam antes dialogar com seus pressupostos e experimentá-la em sua finalidade terapêutica a fim de referendá-la ou não cientificamente. Antes disso, qualquer tipo de ataque, julgamento ou desqualificação que parta de pessoas de “fora”, não dispostas ao treinamento teórico-prático de seu paradigma – como fazem seus psicoterapeutas entre si para depois trabalhar com seus respectivos pacientes formando uma verdadeira comunidade de verificação – não passa de mero preconceito disfarçado de discurso pretensamente cientifico, oficialista ou acadêmico falacioso, a revelar algum nível inconsciente de autoritarismo dogmático ou recalque, típicos daqueles que em resvalando na insegurança se escondem atrás de titulações ou posições de poder para atacar aquilo que desconhecem, talvez por sentirem suas crenças, títulos, fixações ou status ameaçados.

Como enfatiza a sabedoria oriental de Ananda Coomaraswamy: “Não seria científico dizer que tais consecuções são impossíveis, a menos que se tenham feito experiências de acordo com as disciplinas prescritas e perfeitamente inteligíveis… Que isto é assim não pode ser demonstrado nas salas de aulas, onde lidamos apenas com tangíveis quantitativos. Ao mesmo tempo, não seria científico negar uma pressuposição cuja prova experimental é possível. No caso presente existe um Caminho prescrito para os que consentirem em segui-lo…” (apud WILBER, pg. 21, O Espectro da Consciência, 1977)

Nessa mesma linha, os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela, por sua vez, sustentam que toda a pesquisa é uma intervenção na realidade de modo que precisamos levar em conta não apenas a objetividade, mas também a subjetividade do observador, pois muitas pessoas ainda estão iludidas de que o trabalho científico deva desconsiderar a subjetividade e a dimensão qualitativa, como se a ciência não fosse um trabalho feito por humanos. O que, como vimos, tem provocado conseqüências éticas desastrosas, como bem alerta o próprio Maturana: “Dizem que nós, seres humanos, somos animais racionais. Nossa crença nessa afirmação, nos leva a menosprezar as emoções e a enaltecer a racionalidade(…) Nesse processo, fizemos com que a noção de realidade objetiva, se tornasse referência a algo que supomos ser universal e independente do que fazemos, e que usamos como argumento visando a convencer alguém, quando não queremos usar a força bruta.” (Humberto Maturana, pg. 243, Ontologia da Realidade, 2002)

Assim, essa dupla de biólogos lança uma ponte sobre o abismo que tem separado a ciência e seu universo objetivo da experiência humana e seu domínio subjetivo; argumentando que somente pela interface da mente na ciência e da mente na experiência é que nossa compreensão da cognição pode ser melhorada, propondo para isso um diálogo contínuo entre as ciências e outras tradições sapienciais, pois como argumenta Maturana: “(…) a realidade e o real são também proposições explicativas da práxis do viver de um observador que surgem num colapso de suas coordenações de ações com outro, mas que não surgem como tentativas de coagir o outro a satisfazer a sua vontade. Ao contrário, nesse caminho explicativo, a realidade e o real surgem como convites de um observador a outro para envolver-se na constituição de um domínio particular de coordenações de ações enquanto um domínio de coexistência em aceitação mútua.” (Humberto Maturana, Ontologia da Realidade, 2002)

Do modo similar, o paradigma da transdisciplinaridade nos propõe uma dialogicidade entre a arte, a ciência e a consciência (ou a experiência interior e a espiritualidade), oferecendo sustentação para que muitas experiências transpessoais sejam legitimamente válidas, assim como, as várias técnicas terapêuticas que trabalham a partir delas. Isso porque o enfoque transdisciplinar, segundo um de seus fundadores, o físico teórico Basarab Nicolescu (2003), pressupõe tanto o pensamento como a experiência interior, tanto a ciência quanto a consciência, tanto a efetividade, quanto a afetividade. É a valorização da abordagem in vivo, vivencial, resgatada, em detrimento ao exclusivismo da abordagem in vitro, artificial, cartesiana ou laboratorial. Esta última, já bastante questionada num período anterior ao surgimento dos pressupostos transdisciplinares, pelo então médico francês, especialista em epistemologia e história da ciência, Georges Canguilhem:

“A não ser que admitamos que as condições de uma experiência não têm influência sobre a qualidade de seu resultado – o que está em contradição com o cuidado tomado para estabelecê-las – não se pode negar a dificuldade que existe em comparar às condições experimentais as condições normais – tanto no sentido estatístico quanto no sentido normativo – da vida dos animais e do homem.” (Canguilhem, pg. 114, O Normal e o Patológico)

Indo além, a abordagem transdisciplinar leva em consideração que a realidade pode ser complexa, multidimensional e multireferencial, formada por vários níveis de experiências que podem ser descontínuos. Isso significa dizer que as referências, medidas e leis de um nível ou contexto de realidade podem não servir para abordar os outros.

“As normas funcionais do ser vivo examinado no laboratório só adquirem um sentido dentro das normas operacionais do cientista. Ou ainda, condições diferentes fariam surgir normas diferentes.” (Canguilhem, pg.114, O Normal e o Patológico)

Isso exige uma atitude de maior humildade diante dos fenômenos e da vida, onde o investigador precisar tomar mais consciência de si e galgar novos patamares de maturidade, deixando de praticar uma ciência prepotente e estreita, reducionista ou monometodológica, baseada numa postura inconscientemente “fascista” que obriga os outros a acreditarem em supostas provas de realidade, como se fossem verdades universais. Essa nova atitude transdisciplinar, de acordo com Nicolescu (2003), enseja substituirmos o poder e a posse do conhecimento pelo espanto, questionamento e compartilhamento mútuos. Onde o sujeito se torna consciente de que não é possuidor do conhecimento ou de que não se apropria do objeto do conhecimento, mas sim, de que produz questões instigantes ao invés de respostas definitivas. E aceita com modéstia que suas versões interpretativas do real são provisórias e têm validade apenas limitada, relativa e contextual. A atitude onde um cientista assume suas implicações no processo de pesquisa, interpretação e divulgação dos fenômenos, abandonando o engodo da neutralidade e admitindo a influência decisiva de seus próprios critérios, comportamentos, métodos e até do próprio meio em que atua.

Pode-se dizer, a respeito do universo de qualquer ser vivo, o que Reninger diz a respeito do universo do homem: Nossa imagem do mundo é sempre também um quadro de valores.” (Canguilhem, pg.143, O Normal e o Patológico )

Não obstante a isso, Edgar Morin, filósofo da complexidade afirma que diante dos problemas cada vez mais complexos que as sociedades contemporâneas enfrentam, apenas estudos de caráter inter-poli-transdisciplinar poderiam resultar em análises satisfatórias de tais exigências. Para ele, a natureza humana seria o paradigma perdido pela prática cientifica cartesiana, sendo mais um a propor uma profunda transformação epistemológica rumo à invenção de uma “ciência com consciência”.

E é justamente nesse intercurso de mudanças de paradigmas que surge a psicologia transpessoal como um ponto de convergência entre a espiritualidade e a transdisciplinaridade, estando para as ciências e psicologias como o transdisciplinar está para as ciências e saberes, respectivamente: entre, através e além do pessoal e do disciplinar. Similarmente, a espiritualidade, objeto de seu interesse, está para as ciências e religiões, pois é uma vivência, um conceito e um entendimento trans-religioso, transcultural, a exigir múltiplos modos de se fazer ciência.

Nesse sentido a orientação transpessoal tem sido amplamente voltada para o estudo, a pesquisa e a vivência da espiritualidade, sendo transdisciplinar em suas bases, na medida em que converge com outras áreas do saber unindo oriente e ocidente, e é construída a partir de diferentes percepções e interpretações sobre a realidade, tendo em vista seus múltiplos níveis, sua descontinuidade e a importância primária da experiência interior.

Na Índia sempre se compreendeu que a razão, com sua lógica e seus juízos, não pode dar a ninguém a realização das verdades espirituais, mas somente colaborar para a apresentação intelectual das idéias; a realização vem pela intuição e pela experiência interior.” (Sri Aurobindo apud A.S. Salal, pg. 171, Uma Psicologia Maior, 2001)

Consecutivamente, é através da experiência interior que podemos integrar ciência e espiritualidade, validando e valorizando mais o nosso próprio vivido. É pela vivência terapêutica e afetiva que podemos avaliar a TRT e as experiências transpessoais ou espirituais de modo correto e atestar sua cientificidade, tanto quanto entrar em contato com a energia do amor, a fim de nos tornarmos mais autoconscientes.

Sem esse experimentalismo íntimo, afetivo e pessoal, ou sem uma real abertura a nos autoconhecermos, estamos entregues aos ditames insensíveis do intelecto, correndo sérios riscos de ficar nos achando os donos da razão, recaindo naquilo que tão bem prenunciava Albert Einstein ao afirmar que “a ciência sem religião é capenga e a religião sem ciência é cega”. Ao que apenas gostaria de acrescentar: tanto a ciência, quanto a religião sem amor tornam-se cegas e capengas! E é exatamente por isso que precisamos uma ciência com consciência para unir ciência e religião, ou ciência e espiritualidade, de um modo justo e congruente com ambas as partes, ou seja, valorizando o maior mérito da ciência que é o ‘experimentalismo sistemático compartilhado’, bem como, os grandes méritos da espiritualidade advindos da ‘experiência interior’ que permite o desenvolver de saberes sensíveis, assim como, o resgate do sagrado a partir de valores conscienciais inerentes ao potencial interior de transcendência dos seres humanos em sua capacidade afetiva para o amor.

No viés transpessoal e transdisciplinar precisamos exercitar a simplicidade de ser na complexidade do ser, incentivando o despertar do líder que há dentro de cada um e educar para fazer luzir o ser autêntico, sensível, responsável, consciente, criativo, solidário, disposto ao auto-aperfeiçoamento constante. Como diria Nicolescu:

Criar as condições para o surgimento de pessoas autênticas envolve assegurar as condições para a realização máxima de suas potencialidades criativas. (…) A abordagem transdisciplinar está baseada no equilíbrio entre a pessoa exterior e a pessoa interior. Sem esse equilíbrio, ‘fazer’ não significa nada mais do que ‘se submeter’. ‘Viver em conjunto’ não significa apenas tolerar dos outros as diferenças de opinião, de cor de pele e de crenças; submeter-se às exigências do poder; negociar o certo e o errado dos inúmeros conflitos, separando, definitivamente, a vida interior da vida exterior. A atitude transcultural, trans-religiosa, transpolítica e transnacional pode ser aprendida. Uma vez que em cada ser há um âmago sagrado, intangível e inato. Contudo, essa atitude inata é apenas potencial e pode permanecer não atualizada para sempre, ausente em vida e em atos. Para que as normas da coletividade sejam respeitadas, precisam ser validadas pela experiência interior de cada ser.” (Basarab Nicolescu, A Evolução Transdisciplinar na Universidade, 1997)

Outrossim, é tão somente através da energia evolutiva do amor que precisa ser autodesenvolvida que podemos construir paradigmas cientificamente e genuinamente espirituais que compensem todo o nosso esforço e respeitem a vida de todos os seres deste planeta e do cosmos como um todo, pois o dogmatismo não acontece no amor, mas na ausência deste.  O dogmatismo é a pretensão de poder ou controle sem amor, pois um opera na sombra do outro. O dogmatismo é a prepotência do ser que tenta esconder e compensar o seu complexo de inferioridade, todo o seu desamor e negatividades. Enfim, é a negação ou a defesa da nossa própria sombra: nossa “entourage” negativa inconsciente. E estamos todos envoltos em maior ou menor consciência nessa dualidade, podendo recair nisso em maior ou menor grau… em nossas dificuldades no trato com as diferenças. A humildade começa então e, talvez, apenas comece, quando somos capazes de reconhecer isso, de aceitar cada vez mais a nossa própria sombra, sem mais projeções ou deslocamentos.

Para tanto, existe um amor que nos é dado e um amor a ser desenvolvido rumo a uma inteireza e plenitude de ser cada vez maiores. Sendo o amor uma inteligência sensível, um potencial de vir-a-ser, algo a ser aprendido intimamente e através de nossas relações, vale a pergunta: onde temos sido incentivados a desenvolver mais conscientemente esse devir do amor? Os acadêmicos, por exemplo, constrangem-se em falar de amor, acham piegas. A ciência cartesiana o reduziu a química corporal. As nossas filosofias desviaram-se dele colocando num pedestal a razão. Já os mitos só falam de amores trágicos. Enquanto isso, a religião o relega em prol de ritos, regras e tradições. E a nossa cultura tratou de romanceá-lo e não satisfeita, de infantilizá-lo subliminarmente. E assim vivemos numa sociedade onde justificando-nos por inúmeras razões contraditórias, sem reconhecer os nossos avessos e a nossa sombra, abandonamos o amor, vivendo desrazões e sofrimentos. Uma cultura da vitimização e do ressentimento onde a razão rejeita o amor. Onde não toleramos uma dorzinha sequer sem apelar para pílulas ou entorpecimento afetivo. Uma sociedade de valores invertidos, sombria, onde seus membros preferem encher a si mesmos de ilusões para manter as aparências a todo custo e abafar ou compensar suas frustrações ao invés de aprender e crescer com elas.

Por isso, que estejamos atentos então, pois numa cultura extremamente massificada como a nossa, a própria espiritualidade que vem surgindo dessas mudanças de paradigmas obviamente não escapa ilesa, formando aquilo que vem sendo chamado pejorativamente de espiritualismo new age, mas que na verdade nada mais é do que o lado sombra da própria espiritualidade sendo ingenuamente negado e cujo cerne problemático continua sendo o mesmo das ciências e das religiões, ou seja, a tendência humana, “demasiado humana (diria Nietzsche)”, de se deixar levar por ilusionismos (e ilusionistas de todos os tipos!), tendo em vista que sempre vai ser mais fácil e mais cômodo se iludir do que encarar a si mesmo e abrir-se ao sentir mais profundo, admitindo partir de uma base anímico-emocional carente negativa: nossos condicionamentos passados ou vícios de caráter e conduta, com seus árduos e desafiadores bloqueios orientadores sobnegados no inconsciente a nos demandar regeneração afetiva, moral e espiritual.

Assim, o caminho menos percorrido, portanto, o mais estreito, é o da INTEIREZA, onde ao contrário de uma “perfeição” idealizada, somos desafiados a nos conscientizar e aprender a amar mais plenamente, exercitando virtudes e aceitando as nossas negatividades em reconhecendo a própria sombra através do trabalho transformativo interior.

Afinal, podemos claro, desistir do amor… as pessoas preferindo iludir-se freqüentemente fazem isso sem nem ao menos suspeitar… mas o amor nunca desiste de nós e continua a nossa espera, no interior de cada um. Pois amar e amar-seconhecer e autoconhecer-se é o sentido de nossa própria existência e o impulso de nossa própria evolução.

       
  Bibliografia:
  • CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico.  Ed. Forence Universitária, 7a edição, 2011.
  • CHALMERS, David. The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory. Ed. Oxford University Press, 1996.
  • CREMA, Roberto. Liderança no Século XXI: Impactos da Passagem do Milênio. Texto de transcrição de palestra, Brasília, DF, 1998.
  • DALAL, A.S. (org.). Uma Psicologia Maior – Introdução a doutrina psicológica de Sri Aurobindo. São Paulo, Ed. Cultrix, 2001.
  • FRIEDLANDER, Henry. The Origins of Nazi Genocide: From Euthanasia to the Final Solution. Ed Univ. of North Carolina Press, 1997.
  • WALLACE, B. Alan. Dimensões Escondidas. São Paulo, Ed. Petrópolis, 2009.
  • WILBER, Ken. O Espectro da Consciência. São Paulo, Ed. Cultrix, 1977.
  • WILBER, Ken. O Olho do Espírito. 10ª ed., São Paulo, Ed. Cultrix, 1997.
  • LEVY, Pierre. O Fogo Liberador, São Paulo, Ed. Iluminuras, 2000.
  • MATURANA, Humberto. A Ontologia da Realidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.
  • MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A Mente Incorporada – Ciência Cognitiva e Experiência Humana – Ed. Artmed.
  • MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Ed. Bertrand Brasil. 2005
  • NICOLESCU, Basarab. Transdisciplinaridade – Teoria e Prática. Ed. Hampton Press, EUA,2008.
  • NICOLESCU, Basarab. Manifesto da Transdisciplinaridade, 2003.
  • NICOLESCU, Basarab – A Evolução Transdisciplinar na Universidade – Condição para o Desenvolvimento Sustentável – Conferência no Congresso International “A Responsabilidade da Universidade para com a Sociedade”, International Association of Universities, Chulalongkorn University, Bangkok, Thailand, de 12 a 14 de nov. de 1997: http://ciret-transdisciplinarity.org/bulletin/b12c8por.php

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