quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O mal-estar no Brasil em seu desgoverno das sombras como oportunidade de transformação


Se observarmos com atenção o contraste entre as politicas de situação no Rio Grande do Sul e no Brasil, vamos perceber que os partidos são diferentes mas o desgoverno é o mesmo apenas com agendas ou modos aparentemente diversos de desgovernar, mas que sempre almejam um objetivo em comum, ou seja: gerar crises, tensões sociais e atender a interesses particulares ou de minorias dominantes.

Sim, todo o desgoverno é programado para gerar crises e lucros para poucos e não por imperícia, mas por vontade política, por falta de ética e consciência dos envolvidos. Porque enquanto você discute com o seu vizinho petista e o xinga de petralha e ele devolve o insulto te xingando de coxinha, uma minoria dominante já comprou os dois lados com financiamentos de campanha e se esbalda no poder lucrando com todo e qualquer tipo de crise, corrupção e troca de favores que possam ser gerados seja pela agenda da esquerda ou da direita.

Tenho afirmado que para falar sobre a politica-econômica é preciso entender também de psicopatologia, principalmente sobre os conceitos de psicopatia e sociopatia, ou seja, sobre os valores deturpados que imperam nas sociedades e suas relações íntimas com o nosso comportamento e dimensão de interioridade profunda, principalmente com aquilo que negamos e não nos apropriamos, permanecendo inconscientes. É assim que abrigamos forças sombrias em nosso interior, cegos de nós mesmos, alheios ao fato de que quem não se confronta com a sua própria sombra, também não a reconhece no outro e é incapaz de saber posicionar-se apropriadamente frente aos ardis sociais correlacionados a lógica predatória das sombras, deixando-se ludibriar e sofrer voluntariamente. Ou conforme nos afirma o analista junguiano James Hollis:


"Muitos, hoje em dia, não se importam em examinar de onde suas vidas diárias são geradas; muitos não consideram o relacionamento entre a psique individual e os enredamentos sociais e políticos que nós tecemos; muitos não consideram como nossa própria psique se traduz e, até mesmo; transfere sua imagem para o cosmos. (...)Aqueles que não levam em consideração as implicações da alma humana dividida permanecem inconscientes e são, dessa forma, perigosos a si mesmos e aos outros. Aqueles que se importam em parar, olhar e perguntar por que, ficam cada vez mais afinados com a complexidade de seus próprios processos psicológicos; suas vidas tornam-se mais interessantes e eles tornam-se menos perigosos a eles próprios e ao outros." (James Hollis - A Sombra Interior - Por que pessoas boas fazem coisas ruins? -  pgs. 12-13)

A revolta das pessoas contra o desgoverno Dilma é justa e compreensível. O mesmo vale para o desgoverno Sartori. Muitos querem o impeachment de um e ou do outro e amaldiçoam os seus respectivos partidos ou ambos, claro, não raro de acordo com as conveniências. Acredito que se vivêssemos num viés mais apartidário e de uma ética pelo menos um pouco mais consciente, o impeachment se justificaria e com razões de sobra para ambos os casos. Entretanto, o problema ainda estaria longe de ser resolvido, pois é sistêmico e muito mais amplo e arraigado em nossas estruturas psicológicas e sociais, tendo em vista que a corrupção é endêmica e, portanto, conta com a nossa passividade diante dela. O fato é que temos sido seus cúmplices, mesmo que por omissão ou inconsciência, por não olharmos mais a sério dentro de nós mesmos e ainda não termos aprendido, nem encontrado novas formas de reivindicar os nossos direitos civis através de ações que encontrem caminhos em meio aos mecanismos psicológicos, legais e constitucionais que obviamente nunca serão encontrados enquanto permanecermos na mesmice de nossas reações e condicionamentos histórico-culturais que se alternam entre a apatia, o pessimismo, a revolta, a procrastinação, o vitimismo, a autoindulgência, a distração, apenas para falar de algumas das formas reativas mais comuns de "rebeldia inócua" frente ao sistema. 

Não precisamos desistir do país, nem invocar a troca de uma ditadura por outra: populista, corporativa ou militar, pois o momento é de transformar a crise em oportunidade de revisão a fundo de nossos modos de vida e valores. No Brasil, o próprio sistema político e os três poderes estão corrompidos pelo fato de que nossos valores estão invertidos e quando isso ocorre sistematicamente temos o quadro desolador atual onde o Estado é um imenso parasita sombrio a sugar a todos para manter as suas regalias, vantagens, auxílios disso e daquilo, bolsas isso ou aquilo, ajudas de custo esdrúxulas, dentre muitas outras indecências e imoralidades que numa sociedade mais justa e humanitária deveriam ser consideradas exploratórias, mas que aqui não parecem fazer corar nenhum político, juiz, desembargador, etc. O que transparece é que essas pessoas consideram natural gozar de todos esses benefícios muito acima dos reles mortais, como se fossem uma "realeza", semi-deuses, uma elite que ostenta privilégios muito além da conta no comparativo com outras categorias de trabalho, infelizmente, mostrando estarem lá muito mais inebriados por "poder" do que pelo compromisso com qualquer causa social ou popular, salvo raras exceções. 

E no entanto, onde estão àqueles dispostos a abrir mão dos "excessos" de privilégios para exercer qualquer cargo público? Essa orgia de privilégios para qualquer classe, ainda mais a política, dificilmente irá atrair para a politica pública gente comprometida com o "bem comum" pois o próprio regime aristocrático estabelecido é evidência irrefutável do contrário.

O Estado assim constituído serve a si mesmo e não ao povo. O Estado tem sido inimigo do povo e o nosso sistema de poderes da maneira como está organizado tende a atrair e a facilitar a chegada a postos de vital importância político-social a todo o tipo de demagogos, oportunistas, narcisistas, elitistas, corruptos, golpistas, sociopatas, psicopatas, megalomaníacos e prestidigitadores, atraídos que são pela lascívia e pelos deleites de estar no poder num país que tolera demais, diria até doentiamente, a luxúria, as imoralidades e ilegalidades de seus dirigentes.  

Na Suécia, tão comentada ultimamente como exemplo de sociedade organizada e civilizada se comparada ao caos social e ao estado de guerra civil ou luta de classes em que vivemos aqui no Brasil, foi implementado um sistema de equiparação salarial sem tantas discrepâncias entre o que recebem os diferentes trabalhadores, incluindo aí, a classe politica e os poderes estatais: executivo, legislativo e judiciário, que não regozijam de quaisquer excessos de regalias, benefícios extra ou penduricalhos em seus ordenados. Medidas preventivas foram tomadas para minimizar ou evitar justamente que sociopatas e psicopatas fossem atraídos ou chegassem ao poder para se locupletar, diminuindo assim as desigualdades e os índices de criminalidade que são baixíssimos por lá.

Infelizmente, em nosso país tem sido ao contrário. Por aqui, os criminosos de colarinho branco infestam o poder público e privado conforme mostram as operações Zelotes e Lava-Jato, de modo que as desigualdades só aumentam e com isso a taxa de criminalidade sobe, tornando a população refém da violência e da crise de valores que assola nossas instituições que digladiam-se em suas ideologias cheias de contradição, mostrando-se inoperantes perante o quadro de violência que tem se tornado cada vez mais aterrador, atingindo a todos nós pela total omissão ou conivência das autoridades políticas que só fazem aumentar e cobrar impostos cada vez mais abusivos para, em sua lógica perversa e malfeitora, em troca nos oferecer serviços precários de urbanização, segurança, educação e saúde, num crime de lesa aos contribuintes que tem permanecido impune em sua vil arbitrariedade. Cada vez mais precisamos pensar modos de exercitarmos nossa cidadania e buscarmos através de mecanismos legais, seja por ações individuais ou conjuntas, os nossos direitos na justiça contra o Estado, seja em nível municipal, estadual, federal e até recorrendo a organismos internacionais. Se o direito é para quem requer, vamos precisar sair do comodismo e da inércia e aprender a requerê-lo então.

Afinal, que tipo de dirigentes, lideranças e colaboradores nos três poderes instituídos, e ainda mais nos seus altos escalões, podem ser atraídos ou vir a se tornarem autoridades num sistema que está corrompido em suas bases, onde se pratica o auto-favorecimento inescrupulosamente, onde se vota pelo aumento dos próprios salários, entre outras velhacarias e proveitos ultrajantes? Que políticos teremos que escolher nas eleições se desde obscuros financiamentos de campanha só conseguem se destacar os candidatos e partidos com marketing ostensivo, ou seja, aqueles que mais devíamos desconfiar estarem se deixando corromper e se vendendo a grandes corporações da qual a mídia oficial é mero braço atuante? 

Enquanto isso nos ausentamos de nossas vidas pelo culto a celebridades, consumismo e outras miríades de distrações que essa mesma mídia oferece, além de seus valores distorcidos e sua hipnose de massa. Ora alguém já se perguntou que tipo de sociedade é essa onde quem é pago para nos entreter é muito, mas muito melhor remunerado do que quem é pago para nos educar? E nós ainda aplaudimos isso ou simplesmente nos acostumamos a essa total inversão de valores em que feito desmiolados, acreditamos que ser rico ou milionário é ser bem-sucedido, onde a "ostentação" é moda e estilo de vida a ser seguido. 

"A disposição para admirar e quase idolatrar os ricos e poderosos - e para desprezar ou pelo menos negligenciar pessoas de condição pobre ou miserável - é a grande causa, e a mais universal, da corrupção de nossos sentimentos morais." (Adam Smith)

Ora, nos sistemas capitalistas ou socialistas totalitários para uma elite ter muito mais, alguém precisa ter bem menos, é a lógica monetária nua e crua. E veja que não se trata de ser contra a meritocracia, ou de uns ganharem mais que outros, pois há quem possa fazer por merecer, seja se esforçando mais ou por algum outro motivo que seja moralmente aceitável, no entanto, o que sou contra é a existência de grandes disparidades de remuneração que não se justificam por lógica nenhuma que não seja a da ambição desmedida de alguns ou do buraco negro existencial da falta de afeto e humanidade que se encontre dentro de alguém, onde o poder só faz alargar o egoísmo, se tornando desumanizador.  

"Onde quer que haja propriedade, há grande desigualdade. Para um homem muito rico, é preciso que haja pelo menos quinhentos pobres." (Adam Smith)


Não há dinheiro ou poder que seja suficiente nesses casos, nunca houve e nunca haverá e, no entanto, em maior ou menor escala, as pessoas continuam acreditando nessa quimera, possuídas pelo desejo de possuir que na verdade as possui e as faz continuar acumulando posses, nem que para isso tenham que explorar os outros e consumir todos os recursos do próprio planeta em que habitam.

Precisamos de uma profunda reforma política no país que é antes de mais nada, uma reforma na consciência de cada um e de todos nós. Precisamos de gente mais disposta a assumir a auto-responsabilidade e engajar-se em mudar a si e os seus fazeres para atuar socialmente ao invés de esperar por algum tipo de liderança salvadora nas próximas eleições ou ficar apenas reclamando, batendo panela ou fazendo greve e protestos. Algumas dessas práticas até são legítimas, mas têm se mostrado insuficientes, pois não são transformativas e logo tudo se repete... você não nota como ciclicamente se repete? Ainda não viu o suficiente disso? 

Precisamos ir além e nos refazermos sempre a partir de dentro a fim de buscar ações individuais e coletivas ou caminhos de reivindicação de direitos dentro e através das próprias imediações e instituições estabelecidas em que circulamos, pensando coletivamente e atuando localmente dentro de nossas possibilidades. Precisamos mais gente de ação e de menos reclamação, gente que acredite e trabalhe firme para se autoconhecer e encontrar novos modos de posicionamento para contribuir com a sociedade sem recair nos extremos condicionados da passividade e da irascibilidade. Podemos começar então saindo do automatismo comportamental em direção a autoconsciência que nos permite ser mais criativos, lúcidos e atuantes, fazendo a nossa parte para a mudança que queremos ver a nossa volta e em nossas vidas e que começa sempre pelo nosso interior.

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